sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Como eu fui parar nessa merda?
Eu sei que me deixaram nessa estrada, e falaram que ia passar algum onibus aí, que eu tinha que pegar...
Eu já ouvi falar nesse onibus, nem todo mundo entra lá. É muito, muito cheio. Tem que chegar cedo.
Eu tô no meio dessa estrada... alguns carros passam voando, não me notariam nem se eu me jogasse na frente deles. Ao redor, só tem um mar verde, com umas vacas e uns cavalos bonitinhos até, mas não fazem eu me sentir menos sozinha.
Olha, essa estrada é grande pra caralho viu, vou te contar. Não faço idéia da onde leva, nem se devo ir pra esquerda ou direita... isso me deixa um pouco agoniada. É quase desesperador. Eu tenho que ir pra algum lugar e rapido. Não tô com nada aqui, e tô sentindo que esse onibus não vai chegar.
Vou andar um pouco. Sem chance de pedir alguma carona, vai que a pessoa tenta me ajudar? Eu não quero ajuda. Fui deixada sozinha por um motivo, né?
Tsc, tsc, tsc. Lá se foi mais uma hora.
E outra.
Acho que eu preciso de um ponto de onibus. Vai ver, ele nem passa nessa maldita rodovia.
Queria só entender, porque minha mãe não pode viajar comigo. Tudo bem, eu as vezes vomito quando fico nesse zigue zague de estrada, mas sei lá... os pais estão aí pra pelo menos entender as merdas que passamos, né?
Eu vi a mãe de um menino gordinho outro dia, ele parecia cansado demais subindo umas escadas... eu só ouvi a mãe falando que tinha uns biscoitos lá em cima, e ele subiu mais rapido. É meio sádico, mas ajudou ele, acho que isso que importa, né.
É, isso deve ser tudo pra quem não tem..
- Vanessa? O que você tá fazendo aqui?
- Ahn?! Rabs? Err.. como você apareceu... Quer dizer, eu tô esperando aquele onibus vermelhinho. Ele passa por aqui, nao passa? - Como assim, o que esse maldito tava fazendo ali? Rabs me ajudou muito, mas sei lá, eu não sou tão importante assim. Não é nenhum drama adolescente. Eu não conheco ele. Ele não me conhece. Não tem porque...
- Ele passa, Vanessa. Mas.. você vai com ele?
- Eu acho que sim
- Como assim, você acha? É dificil pegar essa droga. Você não acorda cedo, nem com uma mochila você tá. Como você pretende viajar? Sério Vanessa, eu não entendo...
- Eu sei Rabs, que merda! Eu sei o que eu devia ter feito, eu sei que eu estou longe, bem longe... mas eu queria esperar um pouco mais, pra ver se essa merda de onibus vai passar aqui! Eu sei que não estou pronta, mas eu tenho que tentar! E dane-se, se você não me acha capaz de ir embora, eu já ouvi isso a minha vida inteira! Eu vou tentar, talvez eu não consiga mesmo, mas eu vou tentar.  E você, pode ir tomar no cu.
Nessa hora eu já tava soluçando, e pouco me importando com as lagrimas que saiam sem parar... Eu realmente já tava muito cansada de ouvir que não dei o meu máximo, que não é assim que as coisas acontecem. Mas parem de tentar me impedir, porra.
- Vanessa... - Ele se aproximou de mim de uma forma que eu só tinha sentido antes nos meus sonhos - Você vai encontrar alguém que se importe. - E ele segurava o meu rosto, me obrigando a olhar bem fundo nos olhos dele. - Talvez na volta, você não esteja mais sozinha. Você vai conseguir achar alguém que te entenda. Que te apoie. Que te proteja. Não precisa ser pelo caminho mais dificil
As palavras já não saiam da minha boca.
- Eu queria poder ser essa pessoa, mas as dimensões nos impedem. Apenas me escute, e dê tudo que você pode dar, porque eu confio em você. Não precisa ser tão doloroso, nem tão dificil. Eu te desejo o melhor, por mais que isso possa parecer fraco, eu quero que você faça essa sensação ser forte.
E então, eu resolvi continuar sentada naquela grama, agora sozinha. Esperando o onibus. Esperando...

Nenhum comentário:

Postar um comentário